10/20/2005

Eco-casa - Parte I

A permacultura não é horticultura, nem jardinagem e não se faz apenas quando se tem terra. Em casa, no emprego, num vão de escada, podemos praticar permacultura. A permacultura é a planificação sustentável de sistemas, sejam eles quais forem e que dimensões tiverem.
As nossas casas são o sítio ideal para começarmos a modificar as nossas vidas através da permacultura. Todos podemos observar o funcionamento das nossas casas e das nossas famílias e arranjar soluções inventivas para reduzirmos o consumo de materiais e energia, reduzirmos o desperdício e a produção de resíduos, diminuirmos a nosa dependência do "sistema exterior", aumentarmos a nossa autonomia e em suma, reduzirmos a nossa pegada ecológica no planeta.

Já há muitos anos que tento introduzir pequenos hábitos cá em casa com esse fim. Lembro-me que mesmo antes de existirem eco-pontos e sequer se ouvir falar deles, eu juntava grandes sacos de papel usado e obrigava a minha mãezinha a acompanhar-me à Câmara Municipal de Vila Franca de Xira para entregá-los para reciclagem.

As câmaras já recolhiam papel em eco-centros antes de começarem a recolhê-lo através dos eco-pontos, mas geralmente recebiam-no em grandes quantidades, de empresas por exemplo. Também aceitavam pequenas quantidades de papel de cidadãos preocupados, só que essa situação devia ser tão, tão rara, que sempre que eu lá ia, eles aceitavam os meus sacos com um sorriso divertido, paternalista, condescendente - aos olhos deles eu era uma jovem cheia de boas intenções mas muito patetinha.
Mas uns anos mais tarde surgiram eco-pontos um pouco por todo o lado e finalmente colocaram uns também à frente do meu prédio. Na altura senti que eram uma resposta às minhas preces e uma recompensa pelo meu esforço :)

Há também muitos anos que cultivo plantas numa marquise da minha casa, porque gosto de ter uma amostra da natureza dentro de casa, mas a minha mãe sempre se queixou que era espaço mal aproveitado (uma marquise cheia de vasos!), que fazia muito lixo (só terra no chão!), que cheirava mal (composto? isso não se faz em casa!!!)...
Agora finalmente ela expulsou-me da marquise, precisamente quando as minhas ânsias de cultivar em casa crescem exponencialmente. Mas como diz o lema da permacultura, "O problema é a solução", pelo que tive logo novas ideias de como utilizar o espaço da casa para voltar a "chafurdar na terra e nos vasos". Em breve publicarei aqui as minhas experiências de horticultura e compostagem numa varanda de 1m2 e num canto da cozinha de 0,25 m2. Nem eu sabia o quanto se pode fazer em tão pouco espaço!

10/17/2005

Recuperar o solo

O solo da horta é muito mau. É demasiado argiloso e tem pouca matéria orgânica. No Inverno retém tanta água que fica completamente enlamaçado e no Verão retrai-se, ficando compactado nuns locais e abrindo rachas enormes noutros. Quando a seca é extrema, como sucedeu neste Verão, ganha um aspecto pulverulento, como se fosse cimento em pó (tem até um tom cinzento, para maior semelhança).
O meu avô ainda chegou a pedir a um homem que tem uma vacaria ali perto, para espalhar um bom monte de estrume na horta, mas isso nunca foi para a frente. Por um lado isso teria sido bom no aumento da matéria orgânica do solo, mas por outro lado não faria muito pela estrutura do solo e desconfio que até poderia prejudicar a microflora do solo, porque o estrume traria consigo todo o tipo de contaminantes (não me consta que fosse de produção biológica).
O meu pai propôs algo ainda mais radical. Segundo ele, deveríamos extrair aquele solo até uma profundidade de cerca de 50 cms e substituí-lo por terra boa. Ficaríamos então com uma espécie de piscina de terra com paredes argilosas. Eu sempre condenei essa ideia por a achar demasiado disparatada.
Primeiro: este plano assume que o solo não é recuperável e eu discordo disso em absoluto, porque já vi milagres acontecerem em solos muito, mas muito piores que este.
Segundo: este plano não é minimamente sustentável, porque exige maquinaria pesada, grande dispêndio de dinheiro e transporte de recursos entre zonas distantes e ignora completamente o potencial dos recursos locais.
Terceiro: a criação de uma piscina de terra não iria melhorar nada a drenagem da água, que ficaria retida pelas paredes argilosas em seu redor.
Eu sempre insisti que a única solução viável seria recuperar o solo existente, através da adição de matéria orgânica, preferencialmente de origem vegetal em vez de animal.
A matéria orgânica vegetal tem como vantagens o facto de melhorar a estrutura do solo, tornando-o mais leve e arejado e de dispensar os nutrientes às plantas de forma mais lenta que a matéria orgânica animal. O estrume adiciona muitos nutrientes ao solo, mas se não tiver pelo menos palha misturada, funciona de modo semelhante a um adubo químico de síntese - liberta os nutrientes muito rapidamente, estes são lixiviados pelas chuvas e vão contaminar as águas subterrâneas, a estrutura do solo continua má e a longo prazo a fertilidade não melhora.
O estrume é um bom fertilizante, mas é preciso saber quando e onde é que deve ser aplicado e na minha opinião, não deve sê-lo neste caso.
O meu plano é semear adubo verde. Estou a reunir sementes de leguminosas: já tenho favas que colhi nesta mesma horta, tremoços que comprei na BIOCOOP e variedades tradicionais de tremoço e ervilha que "adoptei" da Rede de Sementes Portuguesa. Ainda estou à espera de uns chícharos e caritos que me foram prometidos por uma pessoa e estou a pensar arranjar também luzerna ou tremocilha em maior quantidade (essas sementes terão de ser compradas, mas ando à procura de versões biológicas, para não dar dinheiro às multinacionais agroquímicas). Estas leguminosas vão fixar azoto atmosférico e adubar-me o solo sem que eu tenha de gastar tempo e dinheiro com isso e irão fornecer muita matéria verde que ao se decompôr vai melhorar a estrutura e a vida microbiana do solo.
O processo de recuperação de um solo pode demorar anos, mas num caso como este não demora tanto como a maioria das pessoas costuma pensar. Se a destruição não for total, a Natureza fá-lo com relativa facilidade.
Encontrei um bom exemplo nesta mesma horta. Apesar do estado geral do solo ser mau, nos locais onde a erva cresceu mais abundantemente e sem intervenção humana durante cerca de 2 anos, o solo é completamente diferente - está mais solto, mais húmido, mais escuro e repleto de vida animal.
Aqui está uma fotografia de um monte de ervas e do solo que encontrei debaixo dele.



Este pequeno exemplo demonstra que, se a Natureza (que, segundo o paradigma científico vigente, não é uma entidade inteligente) consegue transformar tão bem um solo em tão pouco tempo, então porque não pode uma pessoa minimamente inteligente fazê-lo também? Para tal nem é necessário muito raciocínio, basta seguirem-se as lições da mãe-Natureza. O segredo está em lançar as sementes à terra. Elas farão o resto do trabalho.

10/05/2005

Mulching

No terreno encontram-se cerca de 20 árvores de fruto e quase todas elas estão doentes, raquíticas e a secar. Não posso gastar água a regá-las pelo que terão de esperar ansiosamente pela chuva, mas decidi aliviar-lhes um pouco o seu "sofrimento", fazendo mulching na sua base. Arranquei as ervas em redor das árvores e cobri o solo com elas, depois coloquei uma camada do pouco composto inacabado que tinha, juntei restos de comida, cobri com cartão molhado e por fim coloquei uma camada de palha para terminar o mulch. Também aproveitei a ocasião para cortar todos aqueles ramos que cresciam a partir da base das árvores e que não só eram pouco agradáveis à vista, como impediam os meus movimentos e retiravam vigor à copa das árvores. O resultado está à vista nestas fotografias representando o antes (as 2 de cima) e o depois (as 2 de baixo).

Cinco árvores já estão, só faltam mais 15...

10/01/2005

Primeiras acções

Na semana em que decidi começar este projecto, comecei também a separar os resíduos orgânicos em casa, pelo que, de entre as tarefas que defini como prioritárias, elegi a pilha de composto como a mais urgente.
O canto que eu escolhi para a pilha de composto estava cheio de entulho - painéis de alumínio, tubos de cimento, lajes de pedra, cepos de árvores, palha, vidros partidos, ferros e arames.
Escondido por baixo de todo o lixo, estava um monte de palha, que lá deixei ficar, para ir adicionando ao composto e para mulching. Infelizmente a palha tinha sacos de plástico misturados, que tive de retirar. O meu avô tinha o bom hábito de juntar às ervas secas alguns restos de comida, mas infelizmente achava que os sacos de plástico também eram compostáveis...
Paralelamente a ter limpo este canto, limpei também um canto do alpendre onde está um churrasco. Encontrei lá um monte de cinzas que achei excelente para enriquecer e activar a pilha de composto. Infelizmente as cinzas também não estavam prontas a ser usadas, porque estavam cheias de pregos e ferrolhos ferrugentos.
Depois de ter limpo os dois espaços, iniciei a pilha de composto, alternando camadas de palha, camadas de restos de comida e camadas de cinza. Por fim cobri-a com um plástico preto. Optei por uma pilha e não por um compostor, pois uma pilha não exige trabalho de carpintaria nem compras e, como já disse antes, quero fazer o máximo de coisas com o mínimo de tempo, trabalho e dinheiro.

Ao deambular pelo meio das ervas altas, descobri imensos pés de favas, já secos, que o meu avô deve ter semeado há uns meses e que nunca chegou a colher. Estavam carregadinhos de vagens e enchi um saco. Obviamente já não estão boas para comer, mas vão servir para semear novamente. O meu avô insistiu que não valia a pena, porque mesmo que germinem algumas favas, elas serão raquíticas, mas eu insisti em aproveitá-las. Já lhe expliquei que esta vai ser a nossa nova política de sementes - vamos produzir as nossas próprias sementes sempre que possível e de preferência arranjar variedades tradicionais que não ficam raquíticas como as compradas às multinacionais. Além deste saquito de favas, já tenho um saco de feijão-frade e outro de tremoço que comprei na BIOCOOP e estão-me prometidos por uma pessoa alguns caritos e chícharos. Continuo à procura de leguminosas para encher as duas parcelas de terreno atrás da casa. Estou a apostar nelas para fazer adubo verde e melhorar a estrutura e fertilidade do solo. Assim que caírem as primeiras chuvas (será que caem?) irei começar a semeá-las.

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