1/18/2007

Comida biológica

Não tenho muito para contar, porque não tenho tido tempo nem condições para me dedicar à permacultura ou à horticultura. Estou mais dedicada ao meu desenvolvimento pessoal e à minha aprendizagem noutros campos.
Por enquanto tudo o que posso dizer é que a minha experiência de consumo ecológico e biológico teve um resultado positivo. Consegui com o meu pouco dinheiro comprar apenas alimentos biológicos e produtos ecológicos. Tornei-me cliente habitual das lojas Bioshop e Shanti, onde compro semanalmente a minha comida, mas também dentríficos, shampôs, produtos de limpeza, papel higiénico, etc, sempre ecológicos. Estranhamente não notei grande diferença nos meus gastos ao fim do mês. Deve haver muitas razões para isso, começando pelo facto das diferenças de preço não serem assim tão significativas e acabando no facto de que quando nos tornamos consumidores conscientes além de consumirmos melhor passamos a consumir menos, o que acaba por equilibrar as finanças.
Continuo espantada com o consumo vestigial de frutas e hortícolas da maioria das pessoas. Comem abundantemente massa, arroz, batatas, pão com charcutaria e queijo e tudo o mais que que seja rico em calorias mas não em nutrientes, acompanhado por vezes de algum tipo de alimento vegetal em quantidades muito, muito reduzidas. Fruta é coisa que comem apenas de quando em quando.
A desculpa das pessoas nunca é que não gostam de vegetais, é sempre a de que são caros, o que me deixa ainda mais incrédula, pois não só eu consumo 10 vezes mais vegetais e fruta que a pessoa média, como agora só compro produtos biológicos e mesmo assim com o pouco dinheiro que tenho, consigo não passar fome e ainda ter dinheiro para viajar, sair com os amigos, ir ao cinema, etc.
Antes achava que havia razão nesse argumento, mas agora sei que excepto para quem é verdadeiramente muito pobre, a desculpa do dinheiro é muito esfarrapada e uma escapatória fácil a ter que se reflectir sobre o que se come.

11/03/2006

Vida simples

Como disse, consigo ter uma pegada ecológica muito menor aqui em Bruxelas do que quando vivia em Portugal. Por várias razões, algumas delas que me foram impostas e não voluntariamente aceites, mas que eu resolvi abraçar como uma oportunidade de recuperar um estilo de vida mais simples.
Estou a viver num mini-mini-mini-apartamento, que não mede mais de 7m2 e que é basicamente um quarto com casa-de-banho, um micro-ondas e um frigorífico. O meu dia-a-dia sofreu uma simplificação muito grande graças a isto, porque o espaço é limitado para a acumulação de bens e eu tenho que possuir apenas o essencial. Além de cama, o material de cozinha mínimo indispensável, um guarda-roupa com muito menos roupa do que eu estava habituada a ter e uma estante com livros, só tenho o meu portátil e um pequeno rádio. Ah, também tenho uma gaiola com um rato albino que encontrei perdido na rua, mas estou a pensar dá-lo a alguma família adoptiva que prometa tratar bem dele, porque neste momento não posso ter nenhum animal dependente de mim.
Tenho poupado muita água, por várias razões. A água do meu banho é aquecida numa pequena caldeira com pouco volume de água, por isso se eu quero evitar terminar o meu banho com água fria, tenho que gastar apenas a água essencial para me molhar e enxaguar rapidamente. Depois não tenho lava-loiça, apenas o lavatório da casa-de-banho e é lá que tenho que lavar a loiça e os legumes. Para evitar situações menos higiénicas, comprei dois alguidares para colocar no lavatório alternadamente: um para quando lavo a cara e os dentes e outro para quando lavo a loiça. Como resultado, recolho toda a água consumida e desde que aqui cheguei há 2 meses, praticamente só usei o autoclismo 5 vezes, porque todas as outras vezes utilizei a água recolhida nos alguidares.
Por questões económicas fui forçada desde o início a procurar lojas e feiras de produtos em 2ª mão para comprar o máximo daquilo que necessitava, o que tem sido excelente, porque desde o ferro de engomar, passando pelos tachos e panelas e acabando em roupas e sapatos, tenho comprado quase tudo em 2ª mão, o que é bastante mais ecológico do que comprar novo.
Este mês vou fazer a experiência de comprar apenas produtos biológicos e ecológicos. Obviamente toda a gente me diz que o dinheiro que eu recebo por mês não chega para isso. Talvez não, mas eu estou convencida que sim e vou tentar provar isso. Claro que se a meio do mês já não tiver mais dinheiro para isso, vou ao mercado comprar legumes cheios de pesticidas, mas vou tentar. Acho que se me focar no essencial e cortar nas coisas que não são realmente necessárias, isso é possível. O problema das pessoas é que antigamente praticamente todo o seu rendimento era gasto na alimentação, mas hoje em dia querem ter dinheiro para ir ao cinema, para andarem de automóvel, para comprarem cds e jogos para a Playstation e já não estão dispostos a dar mais que uma percentagem mínima do seu rendimento para se alimentarem como deve ser. Lembrei-me agora mesmo do comentário duma colega minha aqui do escritório que diz que eu como demasiada fruta e verduras. Quando eu lhe perguntei o que raio queria dizer com isso, uma vez que a fruta e as verduras nunca são demais, ela diz que são alimentos muito caros comparados com cereais, feijões, batatas, etc, que enchem mais a barriga. Ela é quase vegetariana, praticamente não come carne, no entanto nunca a vejo comer fruta e verduras, apenas glúcidos e mais glúcidos. Se eu comesse como ela, neste momento pesava 80 kilos, mas penso que ela tem um metabolismo mais acelerado que eu, por isso continua magra. Mas a questão não é essa, a questão é que as pessoas só pensam no balanço dinheiro/calorias e acham que gastar dinheiro em nutrientes em vez de calorias é dinheiro mal gasto. Esquecem-se que a coisa mais preciosa que temos é a nossa vida e que para ela ser longa e frutífera, temos que ser saudáveis e que para sermos saudáveis não são as calorias ingeridas que contam, mas a quantidade de nutrientes.
Não sei para onde vou e fazer o quê, depois desta minha experiência em Bruxelas, mas seja aonde for, quero prosseguir com este estilo de vida: sem carro, sem tv, com o mínimo de produção de resíduos e de consumo de água e electricidade, com uma pegada ecológica bem mais reduzida, porque dá-me muita tranquilidade finalmente viver como sempre desejei mas nunca consegui.

10/29/2006

Compras em Bruxelas

Em Bruxelas é muito mais fácil ser-se ecológico e ter uma menor pegada ecológica do que em Lisboa. No entanto a pegada ecológica dos Bruxelenses é uma das mais altas da Europa. Alguém tem que puxar as orelhas aos bruxelenses...
Hei-de falar um pouco de várias questões relacionadas com a ecologia em Bruxelas, mas hoje começo pelas compras.
Aqui os mercados, feiras e lojas em 2ª mão são inúmeros e muito frequentados e toda a gente tem carrinhos para transportar as suas compras, que em Portugal só as velhotas usam para ir ao mercado. Também há uns quantos supermercados, mas parece-me que os mercados e feiras têm mais sucesso e ao domingo o metro enche-se de pessoas com os seus carrinhos, a irem ou a virem dum mercado local ou duma feira.
As lojas e feiras de produtos em 2ª mão são um sucesso. Abundam e vendem de tudo um pouco. A mais conhecida é Le Petit Riens, pertencente a uma associação que aceita roupas, móveis, electrodomésticos, cds, bibelots, brinquedos e tudo o que se possa imaginar, para vender depois em 2ª mão. Os lucros revertem a favor de pessoas sem-abrigo e carenciadas, algumas das quais estão directamente envolvidas no funcionamento das várias lojas por todo o país. A associação possui uma oficina que recupera móveis e li que, por exemplo, das 100 toneladas de móveis que recolheram o ano passado, 95% foi recuperada ou reciclada e apenas 5% teve mesmo que ir para o lixo. Esta associação é um exemplo excelente de permacultura em acção.
Passado algum tempo em Bruxelas percebi que o carrinho de compras era mesmo essencial, mas os que se encontram à venda ou são demasiado pequenos ou demasiado caros (alguns chegam a custar 150 euros). Decidi construir o meu próprio carrinho. Comprei uma estrutura metálica com rodas no IKEA por 5 euros, para transportar sacos e caixotes e comprei duas mochilas em 2ª mão no Petit Riens por outros 5 euros, et voilá, montei o meu próprio carrinho de compras, muito mais original que todos os outros que encontro na rua. Já fui várias vezes às compras com ele e funciona perfeitamente. Só tem um defeito - faz um bocado de barulho em piso mais acidentado, um chocalhar metálico que ainda não consegui eliminar por completo, mas quando está carregado de compras o barulho desaparece.

Entretanto já convenci o meu chefinho a ter um compostor na varanda e estou a fazer planos para encher o resto do espaço com legumes. Houve alguma oposição à ideia, porque estes ecologistas de trazer por casa acham que isso é excelente quando se está no campo mas não num escritório em Bruxelas. Mas se tivessem feito um curso de Permacultura iriam perceber porque é que é mais importante compostar e ter legumes numa varanda em Bruxelas do que numa horta no campo. Mas vão acabar por perceber, quando virem na prática o que isso representa.

9/28/2006

Canteiros na cidade

Bruxelas tem uma coisa que me agrada imenso: além dos muitos espaços verdes e da imensidão de árvores e pequenos jardins em frente às casas, as pessoas ainda aproveitam os pequenos canteiros em redor das árvores nos passeios para plantarem flores, tomates, couves, aquilo que lhes apetecer. E para marcarem o seu território constroem cercas em redor estes pequenos canteiros, que vão desde os mais improvisados aos mais "profissionais.
Ainda só tenho 2 exemplos para mostrar, mas gostaria de fazer uma colecção de fotos destes canteiros, pois são verdadeiramente inspiradores. Só é pena que haja mais com flores do que com couves, mas que tenham flores já é uma maravilha, comparado com o betão que prolifera nas cidades portuguesas.


9/21/2006

Voltei!

Olá amigos! Perante tantos pedidos insistentes, cá estou eu a dar notícias novamente (como aliás tinha prometido fazer).
Já estou em Bruxelas e apesar de andar bastante ocupada com o trabalho, em breve vou voltar a postar coisas neste blog. Já tenho algumas ideias a cozinhar no forno ;) Até breve.

8/07/2006

Despedidas!

O meu trabalho na Harpa terminou oficialmente, mas ainda vou lá voltar algumas vezes durante este mês para terminar umas tarefas que ficaram pendentes. O meu último trabalho realizado na quinta foi a adaptação de um canteiro de plantas numa mansão para tartarugas!
Metade do canteiro estava coberto de ervas espontâneas. Aproveitei esse espaço para fazer um laguinho. Cavei o buraco, forrei com um plástico preto resistente, enchi com água e prendi as bordas com terra e pedras. Ficou um bocado improvisado, mas para minha primeira experiência não ficou assim tão mal. Fiz um caminho de lajes de pedra até ao laguinho, para não ser necessário pisotear as plantas quando se anda no canteiro. Ainda falta vegetação em redor do lago e plantas aquáticas no seu interior. Nas zonas do canteiro onde a terra ficou nua semeei luzerna e calêncula, mas não sei se alguém o regou na minha ausência, pelo que pode não ter germinado nada.


Na 2ª foto, do lado direito em baixo, talvez consigam distinguir entre as folhas de uma consolda, uma casinha que fiz com 2 telhas, para a tartaruga se recolher. A ideia foi tão bem sucedida que assim que coloquei a tartaruga no canteiro e após ela tomar a sua primeira banhoca no lago, se dirigiu de imediato para lá onde descansou feliz da vida.
Resta acrescentar que a tartaruga vivia em minha casa há quase dez anos, num aquário que começava a ser uma prisão física e mental. Eu não gosto nem aprovo que os animais sejam mantidos em cativeiro. Acho que toda a gente deveria adoptar pelo menos um cão ou um gato (adoptar e não comprar!), se tiver condições mínimas para lhes oferecer uma vida confortável e com amor, mas não compreendo que se mantenham em cativeiro animais como tartarugas, que dispensam "o nosso amor" e claramente só desejam viver livremente os seus instintos no seu habitat natural.
Mas há cerca de 10 anos atrás uma pessoa ofereceu-me duas tartarugas e como eu nunca as abandonaria por aí, pois não são nativas do nosso país, nem sequer do nosso continente, tive que me responsabilizar pelo seu bem-estar. Uma delas morreu ainda pequenina, mas a outra aguentou-se e já mede cerca de 15 centímetros. Precisava de uma casa nova e mais "natural" e conversa puxa conversa, decidiu-se que a tartaruga iria ser a nova habitante da quinta da Harpa.

Há uma outra razão para que eu tenha entregue a tartaruga à Harpa e que é a mesma razão porque terei de abandonar o meu projecto de Á-do-Barriga, pelo menos por agora. Vou para Bruxelas, pelo menos durante um ano, trabalhar na IFOAM. É uma oportunidade única e estou muito entusiasmada, mas irei sentir muita falta do campo, das hortas, dos trabalhos manuais... Vou fazer Agricultura Biológica de escritório :)
Não sei se irei continuar a publicar textos neste blog, pois não há grandes perspectivas de eu vir a fazer horticultura em Bruxelas, mas nunca se sabe se não irei lá desenvolver algum projecto em permacultura, uma vez que ela se aplica a tudo e não apenas ao cultivo e jardinagem.
Prometo voltar a dar notícias!

7/15/2006

Homenagem aos ténis mais velhos do mundo

Esta semana decidi (finalmente!) fazer o funeral a um par de ténis que me acompanharam durante cerca de 10 anos da minha vida. Comprei-os para praticar aeróbica, depois serviram para tudo um pouco que fosse actividade física e ao ar livre. Usei-os durante estes mesitos de trabalho na quinta, o que os condenou definitivamente à morte, após anos e anos de doença crónica.
Durante estes meses, todos os dias a minha mãe me pediu que não entrasse em casa com eles calçados e me rogava que os deitasse fora. Só acedi a esse pedido agora, pois os buracos de lado deixavam que todo o tipo de picos e espinhos se espetassem nos meus pés, o que estava a começar a ser doloroso.
Mas antes de os deitar fora, achei que a história deles merecia ser contada e que uma última foto merecia ser tirada, pois estes ténis ganhariam concerteza o concurso dos ténis mais velhos, sujos e maltratados do planeta :)


Mudando de assunto, algumas das minhas últimas tarefas na quinta foram o transplante de feijões para o meio dos pés de milho (foto da esquerda), para que possam crescer trepando pelo milho e a plantação de tabaco (é um bom insecticida natural) e abóboras, entre as filas de milho (foto da direita). Tirei os cartões que usei para fazer mulching em redor do milho e reutilizei-os nestas novas plantinhas. Os cartões não estavam já a servir de muito, porque as ervas cresciam debaixo deles e levantavam-nos, mas são muito úteis nas fases iniciais de crescimento das plantinhas, para lhes dar avanço sobre as ervas espontâneas.

As fotografias que tenho apresentado não têm boa qualidade - na verdade têm muito má qualidade - e peço desculpa por isso a quem se queixou desse facto. A minha máquina digital estava com problemas (entretanto já está a ser arranjada) e entretanto comecei a fotografar com a câmera do telemóvel, que tira fotos ainda piores. Espero que mesmo assim percebam as ideias que quero transmitir e assim que tiver a minha máquina a funcionar em pleno, espero começar a ter fotografias melhores para apresentar.

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